Quarta-feira, 8 de Julho de 2009
A rua da província
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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13:42
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Sábado, 4 de Julho de 2009
Carta ao dignissimo senhor D.
Pelo visto o senhor tem trabalhado demais, e sua mãe, me diga dela, melhorou daquelas moléstias que o fez desaparecer tão repentinamente?
Por aqui as coisas andam frias, acho que logo mais a neve irá tampar a porta de entrada da casa. Sinto que é preciso que Agosto chegue logo e com ele os raios de sol primaveris, lembro-me bem do calor daqueles dias agostinos em que nós andávamos a contemplar os lírios e a dar risadas dos tolos obsecados que corroboravam com o cinzento ar matinal da cidade grande.
A Maricotinha está namorando firme, a Juju anda iludindo uns amores tolos. Terminei aquele livro e escrevi aquele texto, terminei o curso de datilografia e estou trabalhando numa repartição pública. Acho que me alistarei para o exército no verão, ouvi dizer que o Brasil está precisando de braços fortes para a luta armada.
Querido amigo, mande lembranças.Essa sua ausência que culmina nesse silêncio não lhe cai bem.
Do sempre seu companheiro de parque,
Mizu.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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01:14
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Quinta-feira, 2 de Julho de 2009
O Trem das Cores
Eu queria um texto cheio de imagens, desses que vão refletindo como espelho aquilo que a gente não mostra claramente ao falar de amor, de solidão e de esperança, deixando toda a intenção real de quem escreve sublimada.
Um texto universal que falasse todas as línguas e ressonasse o som da chuva, chiando pelas encostas do riacho e desembocando na parte mais densa do mar tombando gotas fluídas de verbos esvaidos em flancos inflamados que pudessem dizer da paz que é sentir-se bem.
Eu queria saber usar as cores vibrantes e rubras dos tangos argentinos, que as minhas palavras escorressem como o sangue de minhas mãos cortadas pela lamina prata da navalha dizendo assim das escatologias, das visceras, daquilo que está dentro e que se põe exposto a partir do momento que o verbo se torna hemorragia de sensações.
O meu texto deveria pretender falar de coisas inerentes ao ser humano, mas eu percebi que sobre isso eu não sei falar, eu não consigo estabelecer a ponte entre o tu e o eu, não há o que dizer. Eu não sou poeta.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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00:28
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009
Jogos
Nesta roda, também fui brincante:
ladrilhei as ruas que não eram minhas
para amores que não serão meus.
Sem mais voltas, finda a ciranda,
vou embora, digo adeus.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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04:42
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
O marasmo.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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13:38
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Domingo, 10 de Maio de 2009
Corpos Celestes
-
profetizada.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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03:16
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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
Não te enganes, isto é prosa
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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10:32
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Sexta-feira, 17 de Abril de 2009
O Encontro ou "A persuasão de Caronte"
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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23:13
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Domingo, 22 de Março de 2009
Sobre as meninas e os lobos
Isso não foi um capítulo de auto-ajuda e não pretende ser nada além de um desabafo (desculpa, Menino Trovador, não foi esse o combinado para este espaço... mas eu precisava gritar... sei que ao correr seus olhos sobre essas linhas, eu os sentirei como um abraço...)
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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13:09
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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009
Tristeza no Céu
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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12:26
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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009
Ausência
a mim, me confundem as tuas faltas
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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15:18
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Domingo, 18 de Janeiro de 2009
Fim de tarde na beira do mar

é a mão de Deus que desce dos altos céus
para apanhar um golinho d'agua.
Marinheiro na beira do mar
senta,
bebe,
fuma
esperando que Deus alivie sua ressaca.
A lamparina acesa,
os barcos atracados no cais
Iaiá servindo um golinho d'aguardante
é o paraíso terreno.
Num fim de dia sem sol,
peixes fartos:
o silêncio da enseada se rompe,
às vezes pelos estrondos da mão n'agua,
às vezes pelo canto eufórico do marinheiro
à beira mar.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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23:56
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Sábado, 17 de Janeiro de 2009
"Hoje eu quero tocar a memória..."
Hoje eu quero tocar a memória com a ponta dos dedos e ouvir a quentura de sua face. Quando enternecida pelo longo tempo, a memória se nos dá febril. Seus beijos são labaredas em noite de chuva fina. Gosto de roçar os cílios na face dos dias passados; mas, sobretudo, amo sabê-los distantes de mim.
Vou dando corpo às lembranças; vou lembrando o corpo de sensações então esquecidas. Esquecidas somente para que neste momento eu pudesse recordá-las; aproximam-se num tumulto de vozes como se me quisessem oferecer consolo, palavras de afeto.
Então revelo meu segredo em baixa voz: minhas mãos já aprenderam a morte. Pouco ou nada mudou. De nada valeu gritar o fim e anunciar novas paisagens. Sempre torno ao mesmo ponto, ainda que faça meu curso em espirais.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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04:27
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Sábado, 3 de Janeiro de 2009
"Algumas vezes, pessoas lançam ao mar..."
Algumas vezes, pessoas lançam ao mar pedidos de socorro em garrafas; outras vezes, os lançam por sob as portas e os fazem penetrar as casas e as vidas. Não importa em que língua falem, a quem queiram falar, ou o quê; são sempre os mesmos pedidos de socorro.Não estou diante do mar; mas lanço garrafas com bilhetes e durmo ao canto gostoso das vagas. Um canto que não é, ainda, o murmurinho do mar; apenas o som do amor que eu imagino para aquele corpo de maré.
Maré - eu sei que não estará nunca, sem ir embora um pouquinho. Mas eu imagino: imagino infinitos e eternos; de outro modo não sei fazer. Os dedos brincam desenhos na quentura da areia, silenciosos grãos: invento meu novo amor.
Que os ventos não soprem antes que eu o saiba verdadeiro, quente, doce.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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15:33
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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008
Puzzle
Fui teu puzzle de 1000 peças.
Jogo de monta e des-monta; esquecido e incompleto,
neste agora em que cansaste
de brincar.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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04:34
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008
...
o não e o sim
mas só, apenas hoje, sou universo em vocábulos:
sempre ou talvez.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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14:12
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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008
Um querer de Hamlet para hoje e para o resto dos dias.
Sei que não poderia escrever isso aqui neste blog. Desculpe-me querida Arlequinal, mas palavras me somem da ponta da pena e não há nada que eu possa fazer a não ser refletir o bloco de pedra que se entalou em minha garganta, e a dúvida que me assola, nas palavras do mais célebre personagem Shakespeariano.A todos que aqui nos visitam eu digo que não, por favor não quero ouvir sermões, eu já tenho uma coleção deles no meu armário. Eu sei que tudo tem a sua hora, que quando Deus fecha uma porta abre uma janela, que existem coisas melhores guardadas, que tudo tem um motivo e dessas paspalhadas todas eu já estou farto.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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00:35
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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008
Às manhãs
As manhãs acordam tarde
Já não há como sorrir
E segue o canto triste:
“Estou tão feliz”.
Se fora ontem,
Quem sabe?
Quem sabe não teria
compactuado da felicidade
pura e simples do coração
que se mostra aos olhos meus?
Mas não hoje...
Não neste momento,
Nestas dez horas em que levanto
Querendo estar em coma.
Não nesta tardia manhã que segue uma noite
de mal caídas
lágrimas
(luciféricas? malditas? dementes? lúcidas?)
Não... Não sou capaz de me unir
ao coração puro e simples,
que a noite e o dia já não me bastam!
Busco o limbo, o lugar dos não-sentidos,
dos não-sentimentos, da não-vida e da não-morte...
Só quero negar se puder neutralizar todos os valores:
O dramático, o épico, o lírico
Já não me convencem mais
A realidade (se há) tampouco.
Não resta em mim
nenhum dos humores...
Se não me é de posse o ódio,
Também o amor abandonei/desde o princípio“Pássaro de asas tortas,
(dos amigos, de Carlos, de Vinicius,
de quem mais? Não me lembro agora...)
Queria dominar teu canto zombador,
Marcar tuas dádivas inexclusivas
Com números profetizados,
Lançar-te ao lago de fogo.”Não sou Deus. E estou tão feliz!
29 de Dezembro de 2006
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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10:18
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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
O astro
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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00:26
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Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008
Receita para um abraço infinito
"No mais, quando distante o abraço,
há sempre que se dizer um "olá".
Quando ausente o beijo,
precisamos (sempre) compartilhar o silêncio
e, nele, nos fazer mais unidos."
Uniremos algumas três palavras e de sua indissociabilidade será gerado um sentimento. Quero entrelaçá-las num sempre e nunca desatado nó - serão chave para nenhuma porta. Quero o amálgama entre riso e lágrima e que sejam nova palavra em vida.
E a palavra seja instante subtraído de seu universo; e a palavra esteja só. Toda ela, palpitando apenas minha no ninho de meu corpo. Amarei a palavra.
Palavra, sentimento, porta.
Mas este senão de pequenas e muitas coisas procuradas está me enlouquecendo. Meus olhos não percebem os espelhos a fluírem do ventre e sobre tais estilhaços calco os pés desnudos.
À dispersão dos gestos, somam-se outros passos; discípulos e perseguidores tingindo de sangue o solo que a custo semeei; e sei que essas tintas são o mesmo sol espargido em incessantes fios pelos beirais de nossas casas; fios que embriagam nossas plantas e tomam nossas janelas, umedecem as paredes de nossos quartos em assombrosas figuras.
Tanta seiva entorpece-me; são revelações condenando à vida quem lhes ampara. Abrem meu peito em versos e outros maiores golpes; contam-me a existência de um leito em que convergiram estas águas. Mergulhos irrefletidos incidem sobre nossos corpos; submerge a fonte onírica de onde provieram as primeiras gotículas de lucidez.
São outros os sentidos que habitam o profundo em que construímos nossos paços e ensaiamos nossos dias. Sorvemos as emissões de sons dos quais já não nos ocupamos; na superfície instável, florescem segredos a lançar amantes contra as rochas. Mas, ei-los, no silêncio e na escuridão, pois que resistem: porta, sentimento, palavra.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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15:04
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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
Surrealismos
esta falta de
foda
me funde a
cuca
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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04:46
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2008
Sem título e sem final
E já não sei se o simples e o leve coincidem. Pode ser que não, embora tente associar esses dois também ao amor e à beleza. Talvez eu esteja errada mesmo. Eu nunca compreendo. Mas era simples, sempre foi simples: estar lá, entre as mesmas paredes; meu corpo e só; era, ainda é simples. Mas o amor, o amor e os novos espaços capaz de criar, ultrapassa os limites da beleza e da simplicidade. O amor revela novos medos, caleidoscópicas palavras e construções sintáticas - o mesmo arquetípico sentimento.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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13:45
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Flores
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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13:09
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Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
Fragmentos (ou Contradições)
Abraço. Beijo. Amo. Abraço sem braços. Beijo sem boca. Amor sem mágoa.
Vejo o presente como a um espelho que me devolve imagens invertidas do passado. Presente delicado; cores ricamente combinadas.
Não alcanço o dia em que senti pena de mim mesma em meu sofrimento de palavras.
Piedade? Posso percebê-la quando sou surpreendida pela confusão alheia. Desta vez não há como sentir-me culpada. Porém não consigo ser piedosa, daquela piedade distante; asséptica. Sinto-a como se mil cristais cantassem em estilhaços dentro de mim.
Mesclados aos fragmentos de transparência, líquidos quentes e frios - que não são ainda sangue.
São apenas uma idéia daquilo que poderia ser o sangue, sem perderem a propriedade de cobrir todo sentimento com cores e impressões indeléveis.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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02:52
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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
Exceção...
Brindemos aos corações cativos, porque brindes à liberdade são clichê!
Brindemos aos copos que se quebram na mesa ao lado.
Brindemos aos aniversariantes de hoje e aos de ontem... e aos do mês passado, porque deles não me esqueci. Esquecer-me-ei dos aniversariantes do próximo mês?
Brindemos aos poetas, estão vivos e passeiam entre nós!
E peçamos piedade, piedade aos "puretas" que nada sabem sobre o nosso amor.
Brindemos ao poeta de régua e compasso, esquadro medindo o tempo e o espaço, ao poeta que amava Drummond e os seus três mal-amados; ao poeta que sorvido em "minutos de sabedoria" , mostrou-se sabedor de todos os segredos que convulsionam os nossos corações.

"Junto a ti esquecerei..."
(João Cabral de Melo Neto)
I
Junto a ti esquecerei as inúmeras partidas
- as cordas e as amarras nunca se quebraram
e talvez por isso eu permanecerei imóvel sob a tua influência...
Tu pesarás para mim como produto de âncoras
como a pedra amarrada do pescoço do pecador.
Os portos passarão a ser beira de cais
as terras longínquas nada mais me dizem
- quebrei a bússola para evitar a tentação.
Tua presença é poderosa como urros na floresta.
Sinto que extingues em mim
a sombra dos navegadores.
II
A tua atitude te eleva para o alto.
Vejo que cortaste definitivamente todas as amarras.
Daqui eu adivinho os olhos dos homens
perdidos no tempo que nada descobrirão de ti.
Deixa que os não-poetas falem de tua beleza,
esses nunca compreenderão o que há em ti de sombras
de sementes germinando, de vozes de cavernas.
Nem ao menos que é o teu olhar que nos aproxima
que nos torna irmãos para o resto do tempo.
Eu te reconheceria entre todas, porque tua presença eu a pressinto.
Deixa que tuas formas eles a tomem pela essência.
Esses te perderão ainda mais
e nunca compreenderão tuas inúmeras sugestões
que tu mesma desconheces.
III
Esquecerei os teus convites de fuga.
As coisas presentes serão absolutamente insignificantes.
Sentir-me-ei em tua presença como o primeiro homem
que se ia apoderando de todas as formas conhecidas.
IV
Esquecerei todos os convites de fuga.
Os portos serão para nós apenas
as âncoras e as amarras.
Nossos olhos não mais distinguirão
caravelas e transtlânticos sobre o mar.
Nossos ouvidos não mais perceberão
o barulho das ondas que são um chamamento constante.
Então leremos poetas bucólicos
debaixo de uma árvore que deverá ser frondosa.
Indefinidamente rodaremos em torno dela como num carrossel
indefinidamente estarás comigo.
1937
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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10:00
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008
O tempo da espera...
O tempo da espera também me faz viver. Contar nos anéis cada segundo; saber que entre os dias há o instante em que silenciam os males. Eu queria levar meus pés aos campos onde caminha seu corpo; nos espaços em que, graves, acenam seus gestos. Porém, sei que isso não faria de mim, sua companheira; não seria pra você, aquela que sou. Decerto, sabíamos quem éramos, por isso existiu o amor. Quisera eu fosse o corpo e o rosto em que pudesse repousar sua face ao fim do dia, dos tantos dias que parecem não ter mais fim. Entretanto, sabemos, isso não faria de mim melhor amante — e não aprendi de todo, confesso, como ser a amante esperada. Espero, apenas. Brincando com a areia da praia, juntando esses peixinhos que pontuam minha vida — espero. Que há sempre neblina em meus olhos; e não tem sido também a névoa a nos fazer próximos? Ouvir o mar e seus ruídos é quanto basta para que permaneçam o nome e o amor. Eu quero tanto, tanto... e tanto querer já está contido em meu silêncio. O mesmo silêncio que sustenta minha espera pelo impossível, pela luz nascendo de sua boca e adormecendo estes cortes, estas inquietações.*texto antigo, com pequena variação.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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10:41
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Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008
Biografia para Neusa Sueli com o mesmo desfecho de Emma (a Bovary, de Flaubert)
Eu queria ter tido muitos irmãos, mas o dia em que eu nasci, em 17 de março de 1934, foi também o dia em que morreu minha mãe. Eu bebezinha fui ser cuidada por uma tia, ali mesmo na região de Sorocaba, onde o pai morava. A tia era boa. Era a tia Lurdinha quem me dava o comer e o vestir. Ela me ensinou a lavar, engomar e passar; me ensinou a fazer comida e a cuidar da casa.
Então, quando eu tinha seis anos e já sabia fazer todas essas coisas, fui cuidar do pai na tapera em que ele vivia. Desde que a mãe se fora, ele não mais conheceu mulher e passava os dias trabalhando na roça dos outros. Ele pouco falava comigo ou com qualquer pessoa. Quando chegava em casa de noite, ele tragava umas cachaças e cantava músicas tão tristes que me doía o coração só de ouvir. Parecia que ele já sabia que não existe nem céu nem paraíso. Só de vez em quando é que ele quebrava o silêncio e dizia: "- Limpinha! 'ocê precisa arrumar logo um marido, que não demora e eu desinfeto desse mundo e 'cê fica mais sozinha!".
Mas o pai não imaginava que eu queria, mesmo, era ser como a voz bonita de mulher que eu ouvia no rádio. Eu queria cantar cantigas que também enchessem qualquer coração de tristeza, tristezinha bonita, que faz o coração levinho.
O pai não queria saber do meu querer; me arrumou noivo e vestido. Eu tinha quatorze anos quando entrou aliança no meu dedo. Depois da festa, que durou três dias, o pai tomou uma colher de arsênico e descansou o corpo que carregava a alma havia tanto tempo morta.
Meu marido era homem bom e mascate. Junto dele, viajei muito por esses interior todos e aprendi toda sorte de vendagem fajuta. Ele também pouco falava comigo. Mas também não me batia, como fez o Vado ainda há pouco. O que me tristecia era ver tanta riqueza que ele vendia e a tão pouca que ele me dava. As peças estampadas que me negava eu via cobrindo o corpo das meretrizes nos lugarejos onde passávamos. Eu queria ser aqueles corpos e os vestidos que usavam, os anéis e colares que ostentavam nas janelas.
Um dia, nessas andanças, eu estava lavando roupa na beira do riacho, cantando as músicas tristes que o pai cantava para ninguém. Apareceu um moço, que era mais um boto de tão bonito, e disse que eu tinha voz de artista. Tinha certeza de que se eu fosse para São Paulo e me apresentasse na rádio, enricava em dois tempos e que ia viver coberta de luxo. Eu contei para o senhor meu marido e ele escarneceu de mim, numa gargalhada que ainda hoje toca na minha cabeça.
No dia seguinte eu parti com o moço bonito, me disse que eu não me chamaria mais Olímpia Eugênia Chalipp, mas Júlia Márcia, apenas. Na cidade grande, eu cantei. Cantei em um lugar bonito de paredes vermelhas de veludo, onde homens importantes aplaudiam minha voz. Ele disse que precisava ser assim, pois era ali que o dono da rádio me conheceria. Como eu era nova, eu precisava pagar para cantar, e como não trouxera nenhum dinheiro, dizia o homem boto, teria que me deitar com um senhor muito rico que pagaria para mim; se não o fizesse me cobriria de pancadas.
Uma vez curada, meu corpo recebeu muitos outros homens e nomes: Ana Pia, do Machado; Solange Magrinha, do Jorge; tantas de tanto. Hoje eu era a Neusa Sueli, do Vado. Agora, volto a ser Olímpia Eugênia, do meu pai. Como ele, mergulho numa colher de arsênico e desinfeto daqui.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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18:02
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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008
Fragmento I
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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13:20
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Sábado, 9 de Agosto de 2008
...postelunar... - aniversário de 1 ano
| Sol: | 16 Leão 23 | Ascendente: | 19 Câncer 10 |
| Lua: | 1 Câncer 23 | 2a. casa: | 24 Leão 42 |
| Mercúrio: | 9 Leão 17 | 3a. casa: | 1 Libra 04 |
| Vênus: | 29 Leão 52 | Fundo do Céu: | 3 Escorpião 08 |
| Marte: | 1 Gêmeos 21 | 5a. casa: | 0 Sagitário 02 |
| Júpiter: | 9 Sagitário 56 | 6a. casa: | 24 Sagitário 14 |
| Saturno: | 26 Leão 55 | Descendente: | 19 Capricórnio 10 |
| Urano: | 17 Peixes 53 | 8a. casa: | 24 Aquário 42 |
| Netuno: | 20 Aquário 45 | 9a. casa: | 1 Áries 04 |
| Plutão: | 26 Sagitário 31 | Meio do Céu: | 3 Touro 08 |
| | | 11a. casa: | 0 Gêmeos 02 |
| | | 12a. casa: | 24 Gêmeos 14 |
Seu Projeto:
Fonte: Quiroga.net
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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05:01
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Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008
Sábado, 12 de Julho de 2008
Nada
Nunca gostei que me olhassem fundo nos olhos. Meus olhos significam mais do que as milenares palavras de um dicionário.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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01:38
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Quinta-feira, 10 de Julho de 2008
Visto a máscara...
Visto a máscara e corro todos os bailes, mas eles não sabem. Eles não sabem que suas vozes e suor permanecem nas estampas que lhes envolviam os corpos, mesmo neste instante em que os namorados se fizeram conhecer e os risos recolheram-se no sono da embriaguez.Então sou eu a buscar os retalhos esquecidos nos cantos dos salões. Tingidos de vinho ou sangue, são eles que compõem meu costume.
Parece não ter passado muito tempo desde que recusei meus trajes mais antigos. Tentei vestir o muito leve que são a cor do vento e o som de luas espirais. Permiti que desconhecidas vozes deslizassem sobre meus sentidos enquanto eu permanecia quieta, silenciosa. Não o silêncio de quem cala, mas o silêncio de quem não sabe e precisa aprender.
Aprender que as mãos — as minhas próprias e quaisquer outras — guardam algum segredo, algum encantamento: ainda que cerradas em punho, ainda que voltadas para o céu em completo abandono de prece.
Aprender que os pés sempre tornam ao antigo movimento — o mesmo andar desordenado de quando criança — apesar de o ritmo mostrar que, para além do mal, a vida e o desejo também são motrizes de mim.
Silêncio de quem acreditou nascer, em algum corpo de amante, o beijo que fizesse não mais pensar em infinitos e eternos sobre os quais, de fato, nada sei dizer.
Não estive sóbria naquelas manhãs; mas a fuga aos sentidos era necessária e esperada enquanto houvesse vestígios de tantas festas.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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12:36
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Segunda-feira, 7 de Julho de 2008
Amor Perfeito II
Pequeninas, confundidas e esquecidas entre o solo fértil e as plantas dos teus pés.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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23:37
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Domingo, 6 de Julho de 2008
De quando beijei a morte...
marcela p. em 13/11/2004
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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11:44
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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008
Conversinha Real
- Lindo! Mas tem de tudo mesmo?
- De tudo, só não tem favela. Proporcionamos saneamento básico e um programa de educação sexual para reduzir a natalidade.
- E fome, têm?
- Distribuímos cestas básicas, vale refeição, décimo terceiro, quarto e quinto salários para os trabalhadores. Aqui a fome passa longe!
- Casas?
- Próprias.
- Economia?
- Crescente.
- Desemprego?
- Nulo.
- Homicídios, seqüestros e roubos?
- Quase zero. Sequestro, o que é isso mesmo? Ah! Deixa de bobeira Manuel, não precisamos de cadeia, aqui o cidadão é honesto.
- E aquelas mulheres ali no porto?
- São Helenas, Marias e Joanas esperando por marinheiros, poetas e economistas.
- E os tísicos? Elas também esperam os tísicos?
- Já disse que tu terás a mulher que quiseres na cama que escolherás.
- Mas eu ainda não sou feliz.
(Tosse, tosse, tosse.)
- Respire Fundo Manuel!
.........................................................................................................................................................
- É disso que precisas, ar fresco, prostitutas bonitas e banhos de mar. Isso não é felicidade?
- Majestade, um quase defunto como eu destoa nesse paraíso.
- Então não vais ficar Manuel?
- Sinceramente? Vou-me embora. Pasárgada é um soneto de amor romântico encerrado.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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16:35
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Terça-feira, 1 de Julho de 2008
Deitada no topo...
Gustav Klimt - The Sunflower*para ler ouvindo The Scientist, Coldplay;
continuar ouvindo depois de ler e,
se possível, voltar ao começo...
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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09:59
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Sábado, 28 de Junho de 2008
...

mar de amor, em ondas
me vagueias, enreda-me em tuas teias
ardentes águas-vivas
Imagem: First Light, Christina Hope (1989)
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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13:16
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Sexta-feira, 20 de Junho de 2008
Romeu Silenciado.
Faz tempo que você se foi, prometeu-me um sinal, uma volta, um vôo rasante para me buscar. Dizem que está no México, mora num trailer, vive os dias mais quentes andando pela relva curta que nasce aos poucos na terra vermelha da América Central.
Daqui dessa janela o universo é azul, monocromático, estático. O frei veio benzer-me, nos casou há dias e também não traz notícias suas. Confessei, me matarei numa tarde cinzenta. Como uma mulher vive sem o marido antes que ao menos o ato fosse consumado?
Está confessado, mato-me agora e ninguém me possui.
O que é uma rosa? Um cheiro, um nome, uma cor? Continuaria sendo uma rosa mesmo tendo outro nome? Claro.
Cigarro, arsênico e pólvora.
Um bilhete singelo: Querida volto hoje para buscar-te.
Não foi o rouxinol nem foi a cotovia a madrugada é eterna.
* Ilustração de Octavia Monaco para o livro Romeu e Julieta, Nicola Cinqueti
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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02:37
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Sábado, 14 de Junho de 2008
...
Gosto de chorar os meus mortos e já não sei se meu murmúrio atrai estes fantasmas.Tão distante como não acordar por um dia; tão próximo como levar a mão à boca - e eu sorrio e choro e vivo. Sei que não é meu corpo ainda clamando por luz. Não busca a luz e os espaços, meu corpo. Espera, ainda, que os mortos da última estação comecem a brotar; que eles sejam as flores a enfeitar minha mesa.
Mesa posta para o jantar. Todos bebem. Riem de seus próprios ditos espirituosos. Eu, que nunca sei bem o que dizer, ouço a tudo. Atenta, embora meus lapsos de memória não permitam que eu distinga as palavras em forma e sentido.
Mas percebe aquela formiga se movendo entre as pétalas? Silenciosa. Atônita. Mimética. Ainda há pouco, não era a mesma que vejo agora. Ou, então, é a mesma de ontem. E isso não tem a menor importância. O que me interessa são as vozes contidas em seu movimento desordenado, neste instante em que não está entre os seus. E quem, de mim, espera que eu não seja o mesmo vulto de cores e negrume contidos nas flores e nos insetos?
Sejamos bem educados. Movamos os talheres sem agitação e tentemos não acordar as crianças com nossos risos desmedidos. É preciso conter os gestos e fazer-nos sisudos para não sentirmos dor. Não preciso que me ensinem a sepultar os dias mal vividos e queria para sempre não ensinar.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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01:28
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Quinta-feira, 12 de Junho de 2008
"Tentativa De Prosa Numa Tarde De Junho" ou "Relicário" ou "A História Da Menina Em Poucas Linhas"
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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02:17
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Sábado, 7 de Junho de 2008
- Vem!
Mereces um amor de lascívia e poesia!Um amor, assim, como o meu: insaciável
e melancólico, decerto. Amor em versos
que repousam na atmosfera inconsciente
das palavras sussurradas e nunca ouvidas;
... ensurdecido por ofegante respiração.
Um amor, assim, como o meu, merece
tua volúpia e teu desatino e teus dizeres
de libertino, que são mais um ímpeto infantil;
desejo curioso de menino, desvendando
segredos inconfessáveis do espelho ao avesso.
Perdoa-me, pois esqueço que este amor, nosso,
é feito de portas que se fecham e despedidas.
Mas é, ainda, memória viva. Pequeninas mortes
e delícias revividas, enquanto me debruço na
janela, desmerecendo sorte e adeuses:
- Quero-te, amor, com lascívia e poesia!
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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17:08
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Segunda-feira, 2 de Junho de 2008
Dois dedos de prosa
Trabalhavam calados. Não poderíamos supor quantas coisas pensavam, cada um deles, enquanto exerciam suas tarefas principais: o pai deveria ensinar, o filho deveria aprender. Num momento, porém, o menino expressou a única comparação que julgara digna do pai de quem tanto se orgulhava:
- Papai, São José devia ser um bom carpinteiro, né? Ele era pai de Cristo...
Ao que vovô respondeu:
- Ele não era pai de Cristo e era péssimo carpinteiro.
Os tios são aqueles sujeitos que costumávamos visitar em nossa infância. Fartávamo-nos de brincar com os objetos de sua estante, entediávamo-nos com as longas palestras entre nosso pai e eles, por fim, dormíamos profundamente em seu sofá. Acordávamos no dia seguinte em nossa cama - ou berço - sem saber como havíamos chegado ali.
Chega um dia em que a gente cresce e os tios morrem.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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15:56
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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008
Sou uma fazedora de caixinhas...
Eu sei fazer caixinhas. Nelas, escondo toda sorte de matérias. São miçangas, fitas, pedrinhas coloridas, agulhas e alfinetes, moedas sem valor, fotos e cartas, peças de antigos jogos de tabuleiro. Minhas caixinhas não são como a de Pandora. Não contêm quaisquer males. São inofensivas e, talvez, inúteis. Minto. Há dias em que algumas pulsam rancorosas; e sinto medo.Traço nova caixa, esperando que desta vez permanecerá vazia, na compreensão exata das distâncias que nos cercam. Mas se toda grande distância não é de todo lacuna, poderia permanecer desabitado o novo espaço? Percebo minhas mãos a despregar botões de velhas camisas, amando-os como se fossem o corpo que um dia as vestiu. Não culpo estas minhas mãos. Buscam, apenas. Não um objeto, mas um halo de santidade. Algo como uma idéia. Um motivo. Qualquer sentido que as faça quedar em oração. E movem-se. Dezoito pequenas peças circulares abrigadas na caixa lilás. Lilás. Lilases são as flores nela desenhadas – o fundo em que repousam se faz entre azul e cinza, sem que possa ser dito cor de chumbo. A leveza desta combinação de cores será para sempre associada ao que na caixa está contido.
Precisarei de envelopes perfumados nesta tarde. Não conheço destinatário que os mereça; serão meus e ocuparão a caixa azul. São olhos. Pálidos. Aproximam-se de mim; sou agora o mirante. Tudo lhes pertence – toda terra, toda água e toda gente, até onde a vista alcança. Tudo. Todo o amor e toda a fúria. Poucos sentires para seu anseio em descobrir novos ares e aromas. Não. Nenhum endereço será inscrito em meus envelopes. Tremo por desconhecidas terras que jamais tomarão conhecimento de suas cores. Mas vejo, grande, a caixa azul. É um pouco céu. Um tanto mar. Em muito de sua altura, letra. Não poupo esmero e afeição no fabrico dessas caixas, mesmo quando ensaiam qualquer gesto de piedade.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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05:27
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Terça-feira, 27 de Maio de 2008
Falsa Oração
ofereço a incerteza de minhas letras
Peço ao Senhor Jesus Cristo, por intermédio
das mitologias grega, egípcia, africanas, indígenas, cristã (...),
Que não me abandone nos momentos de cruzes
ou na crueza da aflição
Desde o dia de hoje até que me acabem os anos.
Que eu veja a escureza de alma dos seres humanos
e num ato de carrasco inexperiente, covarde e piedoso de si
Possa cravá-la no branco das folhas de papel
em cenas de flagelo intermináveis
Até que amanheça o dia.
Comprometo-me a mergulhar na poesia
e dela fazer meu pão de todas as horas
Comungar a minha vida
e nunca dizer não
Até que venha o tédio.
* para Fábio Gomes
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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00:17
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Terça-feira, 13 de Maio de 2008
Se eu fosse...
Se eu fosse... Esse era o tema de redação que nos foi proposto. Se eu fosse isso, faria aquilo; meus colegas quiseram ser muitas coisas e coisas extraordinárias fariam com as propriedades que viessem a adquirir em sua transformação. Foram prefeitos, governadores, presidentes. Médicos, professores, Deus. Jogador de futebol, pugilistas, costureiros. Príncipes, princesas, magos. Trapezistas, atores, milionários. Divertiriam a si e aos outros. Extinguiriam a miséria, a ignorância, as doenças. Já não haveria luto, dor e lágrima.
Eu, eu quis ser um pássaro. Naquele tempo, acreditava que os pássaros não fizessem quase nada. Acreditava que buscassem em seus vôos apenas o prazer de estarem livres. Um pássaro não se preocupava com outro pássaro, para o bem ou para o mal. Exatamente o que eu queria: voar, sozinha. Havia certa poesia no meu escrito de menina de nove anos. Poesia que continha e escondia minha fuga ao pressentir a impossibilidade de se construir algo importante. Era assim que eu tecia e justificava meus insucessos futuros.
Aconteceu que a professora gostasse do meu texto. Não apenas o leu em voz alta na sala de aula, como o leu em voz alta nos corredores para vários professores de outras turmas. No recreio, alunos de outras salas e séries pediam para ler minha redação. Êxito literário na 3ª série é coisa muito séria. Então eu sabia escrever? E se descobrissem que eu era uma farsa na próxima redação? Esses dias me trouxeram a questão que ainda permanece.
A professora quis que brincássemos de política. Pela primeira vez em muitos anos haveria eleições para presidente em nosso país. Fato de importância imensurável, já que muitas pessoas lutaram para que tivéssemos o direito de votar em eleições presidenciais. Pois então, deveríamos nós, alunos da 3ª série A, em nossa sala de aula, numa escola pública de periferia, exercitar nossos direitos democráticos. Dois grupos de alunos escolhidos por sorteio apresentariam, cada qual, seu candidato e tinham a tarefa de defender suas propostas. O árduo desta tarefa estava em convencer os colegas eleitores de que nosso grupo e não o outro merecia seu voto.
Não poderíamos comparecer aos debates sem termos feito uma pesquisa sobre os presidenciáveis. Assistimos aos horários eleitorais na TV e recortamos notícias de jornal, tudo para compor o perfil de nosso candidato em oposição ao adversário. O mais importante, porém, foi conversar com nossos pais, tios, vizinhos, irmãos mais velhos, que compartilharam suas experiências com relação a um passado que nos parecia ao remoto e que agora ganhava vida diante de nossos sentidos.
Preparada para o debate, defendi com paixão o candidato no qual eu não votaria. Assim, nos meus primeiros passos em política usei palavras nas quais não acreditava com o objetivo de convencer e obter a vitória. Conseguimos eleger nosso candidato.
O episódio da redação somado ao dos debates e outras coisas das quais me lembro, fazem com que eu perceba o modo velado com que a professora exercia sua liderança. Jamais dissera “faça isso”, “é assim que deve ser”, mas seus gestos eram as palavras em vida. Palavras às quais deveríamos dar corpo para em seguida dissecá-lo.
Nunca mais pude deixar de pensar que as palavras eram perigosas e que dedicaria minha vida na tentativa de dominá-las. E eu já não queria estar só. Precisava compartilhar, aprender e ensinar - porém, preciso destruir a máscara que separa meu discurso de minhas ações. Discernir o que são as verdades e quais são as farsas.
(Escrevi este texto em 2004, pensando na professora Teka, mas como homenagem a todas as pessoas inspiradoras que me deixaram lições. Publicado originalmente por ocasião do 15º aniversário da Oficina Cultural "Sérgio Buarque de Holanda", em São Carlos, na antologiaConsurso Literário "Contos de Poesias", Tema: Brasil, mostra a tua cara. São Carlos, RiMa, 2005. A publicação no blog foi motivada pela postagem da Liz).
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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22:06
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Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
Poligamia

são tantos ais,
são tantos uis.
São tantos pés,
são tantas mãos,
são tantos peitos,
são tantos erros.
São tantos e um,
são tantos em um,
são múltiplos,
são cúbicos.
são tantos sem razão.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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23:09
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Quarta-feira, 30 de Abril de 2008
Arlequinal
As vidas estilhaçadas
compõem desiguais caminhos
— retalhos originais —
"Os versos que escrevias,
enquanto juravas amor
à humanidade vil,
sempre foram canto hostil.
Não pensaste nunca a flor
que teu falo recebia."
Entre palavras armadas,
estamos, assim, sozinhos.
Não há quem cante os meus ais.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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10:00
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Quinta-feira, 17 de Abril de 2008
Eclipse
se ora me escondo, ora me entrego
eclipsante, como as faces do luar
mas nova, plena ou minguante
não é, ainda, a mesma lua?
não sou a mesma e tua,
dependente de luz
de estrela para
brilhar?
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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14:16
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Quarta-feira, 9 de Abril de 2008
...
Desejo de me render ao teu domínio e desfalecer em teu colo.
São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.
Minha face tomada pelo perfume em teus cabelos;
minha boca em teus ombros: embriaguez.
São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.
Minhas mãos, amantes, em tua pele de lírio;
Nossos lábios unidos, luz das manhãs.
São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.
O frêmito em teu corpo na morada dos meus braços;
nossas pernas enlaçadas, teias de amor.
São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.
Medo de ler nas tuas formas o que imagino todos os dias:
esta linguagem sem palavras que nasce em mim.
(dez/2006)
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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18:40
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Segunda-feira, 31 de Março de 2008
Cidade do Silêncio
Neste beco tão florido e silencioso fica a casa eterna daqueles que têm meu nome. Aqueles que eu conheço e que me compadeço. Moram ali quatro meu bisavô, seus dois varões e aquele que mora lá antes do tempo.
Eu os visito em tempos esparsos, em tempos de adeus, caminho descendo aquela pequena ladeira e passo por casas conhecidas, por pessoas que eram antes que eu fosse, passo por pessoas que partiram antes que eu pudesse chegar. São casas singelas, pequenas e apertadas, mas que guardam grandes memórias.
A brisa toca meu rosto e ao longe além dessa cidade silenciosa o sol alaranja o mármore, as folhas despencam das árvores na minha frente e cobrem um chão de adeuses e louvam do chão os deuses, implorando misericórdia para quem dorme.
Caminhando, descendo, percebo que um desconhecido preocupa-se em lavar os quintais e a água desce, escoando, escorrendo, seguindo o fluxo da ladeira intermitente levando folhinhas, lavando pedrinhas, passando pelas raízes desobstruindo passagens, seguindo, perdendo o volume, se diluindo, tornando-se umidade do chão.
Logo chego no portão da casa dos meus compadecentes, mas não ouso chamar. Eles dormem.
Olho para a casa como aquele que olha para as estrelas em busca do infinito. Olho para a casa, como aquele que olha nos olhos da pessoa amada buscando o eterno. Porém o eterno se desfaz e o infinito silencia, agora somos paz, agora somos silêncio.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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21:19
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Quarta-feira, 19 de Março de 2008
Chuva
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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02:03
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2008
...
* para Scaliest
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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20:56
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008
Ou: "és eternamente responsável por aquele que cativas"
Murillo Marques
execução e direção de fotografia:
Hugo Henrique
direção artística:
Marcela Primo
rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs
Fonte: debaixo d'água
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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17:11
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008
The Red Dry Leaves
Dawn.
Red Dry leaves.
The Moonlight kissed the street and she appeared among a rain of red dry leaves. Probably she was singing a song; maybe she had blue on her brown eyes.
Loafing, She laughs, Loafing, He drinks. Loafing, the leaves brought fine cares, when all the things are new and the entire world is sensitive.
Keys.
Door.
Room.
They were just hands and kiss, bed and sheet, hips and arms, lips and moans. It was 5 a.m. and he slept, while she stood on the left side of the bed. She was extremely tired; she had red lips, red nails, red thoughts. She had a mirror on a dressing table in front of her, a mirror which had never reflected her before; She looked around that unknown room and smiled when she laid her eyes upon that unknown face sleeping like a child on the bed. The walls had a suburban smell and the first rays of sun were crossing the curtains and everything she could see were painted by morning colors.
The night was about to go out and the morning was singing the autumn song.
She dressed her fine black stockings, then the skirt and the blouse. On the table near the keys and the empty bottle of wine were the cigarettes. She lit one. On the cigarette box was a little post it, saying “The money in the wallet is yours” she took his wallet in the coat pocket and she paid herself.
Keys.
Door.
Street.
The car drivers were blowing the horns, people were walking and the sun started to shine. “Just one more day and that will be enough” she thought. How many thoughts haunted her mind before she got home? She needed go on, she must go on, step by step she walked home.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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00:50
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Sábado, 2 de Fevereiro de 2008
O Vazio
Era uma casa completa. Tinha os móveis, os retratos, um jogo de sofá e televisão.Na cozinha tinha panelas, panos de prato, cristais e geladeira. No quarto cama, guarda roupa, tapete persa e cortinas. No banheiro tapetinho, escovinhas para os dentes, papel higiênico, escovinhas para os cabelos, toalhas e sabonetes. Felicidade.Era Borges o morador daquela casa. Muitas vezes durante todos os anos que ali morou abriu as portas daquela casinha para as festas, para a entorpecência e para os cidadãos da aldeia. Mas um detalhe é valioso para os fatos que virão a seguir, Borges nunca saiu de sua casa, nem por motivo de doença grave. Era medo, era aflição, era insegurança, era um sei lá o quê de apavoro que rondava seus pensamentos.
Os anos passavam e Borges se bastava naqueles cômodos e Borges contentava-se com o mundo visto pela janela. Eram flores que nasciam na primavera, era a brisa fresca que entrava no verão, era a folha seca do outono que grudava no vidro e era o galho pelado que batia no telhado no inverno. Borges era feliz.
Numa noite dessas que a gente rola de um lado para o outro na cama sem conseguir dormir Borges ouviu um barulho na sala e foi ver o que era. Num pulo assustou-se, o sofá tinha sumido. Acendeu as luzes da casa, procurou achar o vão por onde o patife do bandido havia entrado, mas nada encontrou, nem uma marca de arrombamento ou uma marretada na massaneta. Naquela noite ficou tão apavorado que trancou a porta de seu quarto e ali debaixo das cobertas pegou no sono só quando o dia raiou.
Na dia seguinte tremeu, tremia, abriu os olhos e percebeu-se apenas com as roupas do corpo a cama havia sumido, o guarda roupas, o tapete persa, as roupas os chinelos o travesseiro a coberta a poltrona abriu a porta desceu as escadas a cozinha estava deserta sem sinal de vida sem sinal de garfo de faca de pia de torneira os quadros da parede esbranquiçaram as pessoas nas fotografias sumiram a televisão escureceu. Borges andava pela casa e o passo do pé passeava pelo assoalho e o eco batia no teto passando pelo pé e batendo na sola de volta, a respiração dentro da casa era uma conversa de fantasmas do século XV.
E naquela manhã, quando Borges olhou pela janela de sua casa e viu os campos floridos e o dia ensolarado que ali fazia, percebeu que sua casa era vazia.Ouviu um barulho vindo da cozinha, andou receoso de encontrar os larapios que lhe roubaram toda sua vida, mas só encontrou uma porta batendo, era a porta que dava para o campo da aldeia. Então era por ali mesmo que os contraventores tinham levado as relíquias de sua vida.
Mais que depressa correu para a fora de sua casa, a porta encerrou-se em suas costas e Borges percebeu-se do lado de fora, com a terra invadindo os vãos de seus pés e os sol perfurando suas retinas. Sentiu medo. Decidiu voltar para dentro de casa, mas a porta estava trancada. Era uma casa deserta.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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04:40
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A PALAVRA
A palavra não diz nada, a palavra é vento
é água rolando na ribanceira, cachoeira.
Me diz,
Me disse,
Me dissestes.
Silêncio.
A palavra armada,
concreta e discreta,
não se assina
assassina a liberdade, o pensamento,
a leveza de uma brisa metafísica.
A palavra se constrói.
A palavra se destrói,
num átimo,
numa sequência de idéias,
em meia duzia de linhas.
A palavra se corrompe
se disfarça
não diz nada.
A palavra se encerra aqui.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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04:26
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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008
Devastação...
Tudo começou assim...
Um casal, uma cama, música.Tudo acabou assim.
Não existisse a cômoda, talvez...
Mas uma gaveta foi aberta
e as águas vieram torrenciais
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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17:55
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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
Poème
O poema a seguir é bastante antigo. Publiquei no meu antigo blog em 27 de janeiro de 2004, mas creio que eu tenha escrito em 1997.
Dans un bois plein de fleurs
Je pourrais au loin courir
Courir au-devant du coeur
Au-devant de mon avenir
Je n'aurais pas d'argent
Je n'habiterai pas un château
J'aurais seulement le chant
Le fort chant des oiseaux
Sinon ça, ce sera ma vie
Je vivrai pauvre et contente
Mais l'avenir n'est pas vivre
Il est mourir doucement
Et au ciel, je serai une étoile
Qui s'allume fortement
Quand la nuit déroule ses noirs voiles.

Não terei dinheiro/Não habitarei um castelo/Terei somente o canto/ O forte canto dos pássaros
Mas isso, isso será a minha vida/Viverei pobre e contente/Mas o futuro não é viver/É morrer docemente.
E no céu, serei uma estrela/Que brilha fortemente/Quando a noite desenrola seus negros véus.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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14:50
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Domingo, 20 de Janeiro de 2008
Briga de Casal
Lá estava a janela, posta em cima da cama, e a fresta estava aberta e daquela fresta um raio de luz cortava o escuro, como uma faca entrando no peito do jagunço, pensei comigo que ninguém nunca percebeu como o céu fica limpo algumas horas antes do dia nascer.
A lua brilha intensa, tontinha, ingênua às três horas da manhã achando que os casais são felizes e que se amam pelas ruas contemplando um lirismo cafona e antigo.
“Lua cretina mal sabes como são claros os pesares desse peito!”
São três horas e ele lá fora, na rua, onde está o rum, eu sei há de ter uma garrafa de outro dia, maldito rum...Ah! Esse gosto puro e quente que me desce goela abaixo, me faz divagar essa lâmina lunar estancando o breu alcoólico desse quarto que teima em me afogar enquanto ele não chega.
São cinco e cinquenta e dois, o quarto continua aqui, abro meus olhos embaçados, onde estou, o cinzeiro a cama as estantes a TV as cinzas as cinzas ah! Cinzas...Acho que acordei com o tilintar de chaves no portão, o rum onde está o rum...Vazio do outro lado da cama. Ele abriu o portão, a lua, foi, embora, ele abriu o portão, a lua, foi, embora, ele subiu degrau por degrau do maldito corredor cantarolando El dia que me quieras.
Eu sei que ele está do outro lado dessa porta sem encontrar a chave redondinha, se, se, se eu, seu eu pudesse eu até levantaria. Mais cinco minutos e ele abre a porta, ah, a luz inunda o quarto e ele não me viu.
Fechou a porta, não achou o interruptor, me procurou, tateou o lençol revirado, derrubou as cinzas, chutou a garrafa, acendeu o cigarro, tirou os sapatos, desabotoou a camisa, sentou na cama, me procurou, receou chamar pelo meu nome, ensaiou, murmurou, cerrou os dentes, mas fui mais ágil:
“estou aqui.”
“ oi meu bem?Desculpe, eu, estava...” esbaforiu uma mentira opiante.
“dorme querido, antes que o sol nasça.”
Deitamos na cama e dormimos antes do dia raiar. Afinal, ninguém gosta de dormir com o sol nascendo na janela.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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11:37
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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008
Again
Um tanto de água; um tanto de sal.
Corpos entregues ao mar
- amores distantes; lágrimas -
corpos unidos; suor.
Sal; tempero da vida: Amor.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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05:30
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008
Almost
Pensamento breve ilumina a orvalhada face:
a aurora em teus olhos abriga e aquece
a madrugada fria: o corpo meu.
No meio da tarde, eu. Só.
*Ao Glauber.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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11:57
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Domingo, 13 de Janeiro de 2008
Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007
2008... docemente bárbaros...
Mu,
Te amo!!!
Nunca mais vou te deixar só...
Beijos, da tua Marcela.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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21:01
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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007
Go Back...
― Muitas foram as batalhas travadas e, de
arma em punho, um tanto de mim se
perdia, a cada golpe desferido. Depois, era
caminhar os campos: reconhecer, entre
os corpos tombados, os rostos de meus
irmãos. O calor da guerra, tudo desvirtua. Já
não é defender nossas terras e vidas que
almejamos. Antes, anseamos beber, num
cálice de glória, o sangue inimigo. Em dias tais, não
só a matéria, mas sobretudo a alma se faz
cativa. E quando o último, entre eles ou
nós, cai derrotado, ainda não é o fim. Havemos
de preparar o retorno; peregrinar ao encontro de
quem sempre ou nunca nos esperou. Não creio que
seja eu, mas estou de volta ao lar: ferida, maculada;
aqui estou, tal como não era quando parti. Há
quem ouça meus rumores? Há quem saiba o que
eu sei?
A guerra se faz com lâmina e fogo; a guerra é o amor.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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06:37
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Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007
A Onda
A onda passando, suave e sonora.
Ah, saudadinha boa, a água do mar me saudadifica. A onda na areia esvaindo entre o grão e a conchinha deixa marcada a pegada molhada de outrora.
Ai saudade doida que vai e vem,
se esvai
e quando vem passa pelos dedinhos enrugando, envelhecendo.
A pele envelhece a a água, a onda, o mar...
Ali na beira daquele mar eu vejo o horizonte, eu vejo o céu, eu vejo o sol. Ali, bem ali naquela linha rente entre o céu e o mar o sol vai debulhando, mergulhando, dissolvendo-se como uma enorme aspirina.
E a onda vem espumante, desfazendo a grande azia do mar,
toca os meus pés,
minha alma,
toca uns pensamentos tontos que se escondem no coral abandonado da minha mente.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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11:43
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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007
Cecília Meireles
4o. Motivo da rosa
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
Serenata
Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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13:05
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Dia de Primavera
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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Sábado, 22 de Setembro de 2007
Amor Perfeito
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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19:33
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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007
Resposta em duas partes
I
Altaneiros teus versos cruzam mares
De palavras concertadas em luz...
O tolo viu-se belo em teus cantares
— melodia e vaidade, sonhos nus —
Faz-se um mundo o que era tão estreito
E dilui-se já em questão cruel:
Que beleza existiu no antigo feito?
Alçou, teu canto, uma pedra ao céu.
Nenhum mérito ou leveza contidos
No prisma com carinho esquadrinhado,
Na dedicatória tão mal escrita,
Nos alheios ditos... minha desdita...
Pois são um grito desequilibrado
— Tecido sobre versos jamais lidos.
Por instantes o pássaro impedido de cantar se imaginou liberto
E agora o eco da gratidão soa triste em mim
Em quaisquer ouvidos sou
Interrompida
Esquecida
Nos subsolos
escorregadios
da memória escondida
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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09:25
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007
O Olho
O olho que abre.
O olho que fecha.
Num estado eufórico de dançar o olho se olha. Sentado na cadeira percebo que o olho é só uma metáfora do olho que vejo, é só uma metáfora daquilo que entendo. Eu que não entendo nada do que vejo.
O amor ganha um nome e está representado pela figura em cima do criado mudo, a dor ganha um nome e é representada por Januário Almeida Barbosa, o homem que se foi.
O braço não é mais o braço o braço entrelaçado é um abraço. E numa explosão de cores a mente se dissolve o vermelho torna-se azul, que se explode num amarelo derramado da gema do ovo caído, e a água da torneira com seu barulhinho azul de gotejar alucina meus ouvidos numa sinfonia fácil de executar e o branco que se funde na janela, o copo de leite se transforma em nuvem, algodão tão macio de pisar e a tinta verde que jorraram no quintal parece tão fofinha, do décimo andar sinto vontade de saltar no verde clarinho, tapete macio para se deitar. Enquanto o roxo, o lilás vão tomando conta de mim, meus sentidos se dissolvem no amarelo quentinho que vai inundando paredes, provocando gargalhadas e despertando felicidades fáceis de sentir. Ele não voltará e o quarto ali, refazendo, resignificando, numa catarse sem fim.
Sentado na cadeira, os olhos piscam.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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13:30
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Canções
Fui agora mexer nas tuas cartas.
Quem pudesse voltar a acreditar
Nessas palavras doidas e transidas
De febre no delírio da paixão
Que arrastaram num sonho as nossas vidas
Misturando-as na mesma reacção!
Aqui há um juramento além da morte.
Ali dizes que vens logo à noitinha;
E um cheiro a vinho e a fruta – Que doidice!,
Paira naquele quarto de hotel
Onde fiquei três dias e três noites
Esquecido de tudo à tua espera!
Estávamos em Março; Primavera.
Nesta um abraço ainda cinge e aperta
Meu corpo vibrante,
E ali rasga o papel o teu ciúme
Num beijo sensualíssimo de amante.
Além, mais alto, impões que te apareça
– E a noite era uma noite muito fria!
Tanta carta a falar do nosso amor,
Tanta coisa que morre e nem nos deixa
Sequer um vago som de simpatia?
O que eu chorei quando esta recebi,
Esta que diz: «Não volto a procurar-te.»
E atrás de ti segui por toda a parte,
Até que te encontrei; e ardentemente
Voltámos à loucura que findou.
Como é que a gente pode mudar tanto
Sem sentir pela hora que passou
– Por essa hora linda de prazer,
Uma saudade, um pormenor qualquer
– Ficarmos alheados ou suspensos
–Uma tristeza, uma tremura, um ai
Que nasce e vai morrer lá onde a realidade
Começa e não acaba e nunca expira?...
Não leias estes versos.
Tudo isto,Tudo isto, afinal, é só mentira.
(Antônio Botto)
António Botto nasceu em Abrantes, em 1897, tendo vindo a falecer em 1957, no Brasil, para onde emigrara em 1947. Viveu em Lisboa e foi contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa.
Lindo poema, lindo mesmo.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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13:04
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2007
Nossa Senhora dos Ventos
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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15:12
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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007
Arlequinal
posso oferecer deleite e refinada vinha
a quaisquer-bem-me-queres.
Sei mais que sons e gestos ensaiados;
quando finda a luz, cessa a cena
- e findará, em qualquer aurora.
Apesar da máscara pregada à cara,
há sempre uma amarra que se desprende -
um losango que cai.
São pesadas as minhas vestes arlequinais;
não obstante, tenho o coração a mostra.
Nu, mas em retalhos.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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17:47
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Terça-feira, 4 de Setembro de 2007
Túnel das ilusões
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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12:28
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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007
Carpe Diem
O hoje? não sei.
Tampouco sei dizer do que passou,
do que será.
Sei do que nunca há
nem há de ser... sei das
voltas e das espirais.
o reverso do que sempre esteve:
sempre estará.
Tempo que não meço, mas vem e volta,
tira as coisas do lugar.
Teu mais forte brilho
Não hás de mostrar, tão assim, sem enigma
Haveremos de decifrar... de sentir.
Não sei se hoje ou quando.
Talvez nunca; sempre talvez...
Não raro, repito dizeres tais.
Estrela, és: ora no céu, ora no mar.
Isso, apenas isso eu sei.
§ Para Gabriela Camargo.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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18:03
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Sábado, 25 de Agosto de 2007
"Não, meu coração não é maior que o mundo"
Eu quero dizer.
Deveria?
Deveriam meus braços
tornar a ser abrigo?
Quereria.
Num abraço, próximo está o corpo querido;
mas distante dos lábios, a precisa fala.
Desejaria?
Outras histórias e gestos vividos. Como
ler no tato - no olhar - o pulso desejante? O desejo amante?
Poderia.
Se eu pudesse ver o quanto queres me dizer,
entenderias, talvez, que sou abrigo de teus anseios.
Por fim, deveríamos?
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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03:23
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Terça-feira, 14 de Agosto de 2007
Mundo, mundo, vasto mundo.
Os corpos transcendem numa conversação, o olho pisca, a mão cala, o corpo dança a língua fala. Numa conversa refletimos o eu e o outro busca em nós aquele eu das sensações perdidas.
"Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração."
Não sei porque me deu vontade de escrever sobre coisas infâmes. "Eu não devia lhes dizer, mas essa lua e esse copo de ópio deixa agente saudosista como o demo!"
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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15:31
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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007
Noite
Era apenas uma noite.
Uma noite, muitos rostos;
muitos rostos e a embriaguez.
Não a embriaguez do vinho;
era o sabor da descoberta que nos entorpecia.
Vimo-nos, é certo, pela primeira vez.
Cada qual tirou o véu de seu coração e sorriu.
Deveríamos chorar, pois a janela estava aberta
e não era belo o que se mostrou. Mas sorrimos...
Havia o céu... nenhuma estrela;
a lua, Ártemis crescente, a lua eu já ofertara a outrem...
Restávamos nós e a rua - havia o céu e a perdida lua.
Ouvíamos, já, um ao outro?
Vozes confusas, talvez embaraçadas.
O fuso em mãos, novos sentimentos teceríamos:
renascíamos em cada palavra e, em todas elas,
Nossas vozes fundiram-se.
Não era belo o que se mostrava,
Mas tudo a nossa volta e a nós mesmos
O sorriso reinventava:
Olhar o chão e ver estrelas
No topo de um poste, avistar tão linda lua.
Era apenas hoje. Eram todos os amanhãs de nossas vidas.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
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00:07
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Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007
Luas e Copos
Ali, bem ali, tinha um coração, um copo e uma lágrima que nunca caiu.
Mafagafinhado por
O Menino Trovador
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22:51
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Sim
"Quero te pedir uma coisa!"
Quantos quereres contidos? Olvidados mundos renascem neste intervalo.
E porque nossos souvernirs quebraram-se em bolsos de jaqueta, mochilas; porque nossos tesouros perderam-se de nós, menino e menina, enquanto brincávamos de roda, a resposta - qualquer que fosse, quaisquer fossem os pedidos - deveria ser sim!
Aqui estou, amigo querido, à sua espera!
Trago as mesmas vestes arlequinais; uma garrafa de vinho e muitos céus de muitas luas para reinventarmos.
Poderia ser conhaque.
Mafagafinhado por
marcela (arlequinal) p.
às
05:01
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